domingo, 7 de junho de 2015

HISTÓRIA DA ARTE: LIBERDADE

Lisboa inaugura mostra de artista do século XVII que virou maior pintora barroca de Portugal
Marana Borges | Lisboa


Josefa de Óbidos viveu profissionalmente da pintura e fez pelo menos 130 obras, que estão expostas no Museu de Arte Antiga da capital portuguesa até setembro

Viveu profissionalmente da pintura. Foi empresária. Chegou a ingressar em um convento, mas logo saiu. Nunca se casou. Morreu com fama e riqueza consideráveis. Tudo isso no século XVII. Josefa de Ayala ergueu na pequena província portuguesa de Óbidos uma vida incomum a uma mulher de sua época, convertendo-se na maior referência do Barroco português.
Emancipada e com importantes encargos da Igreja em Portugal e na Espanha, deixou centenas de obras que hoje são conhecidas mundialmente – estão na coleção do Museu do Prado (Madri) e do Louvre (Paris). Lisboa inaugurou no Museu Nacional de Arte Antiga, no último dia 16, a maior exposição até hoje de seus trabalhos, em exibição que vai até 6 de setembro. “As obras dela mostram um domínio dos efeitos da luz, gosto pelo detalhe e uma beleza idealizada”, disse a OperaMundi Joaquim Oliveira Caetano, um dos curadores.

Ao longo de 130 obras de pintura, escultura e artes decorativas, pretende-se afastar o mito de uma artista beata e provinciana. Ao contrário, Josefa era uma mulher culta e independente. De família bastante religiosa – dois de seus irmãos eram clérigos – teve uma breve passagem por um convento, não chegando a se tornar freira. Manteve em toda sua vida, contudo, uma profunda admiração por Santa Teresa D'Ávila, a grande influência feminina do período na Península Ibérica. Diversas de suas obras a homenageiam.

A história de Josefa de Óbidos, como ficou conhecida, desafia a história da arte, que pouco ou nada diz sobre mulheres artistas. Apesar de não haver qualquer retrato ou autorretrato seu, o legado que deixou vai além de um rosto. Nascida em Sevilha em 1630, regressou cedo para a terra natal do pai, o pintor Baltazar Gomes Figueira, precursor das naturezas-mortas em Portugal, à maneira do bodegón espanhol. Trabalharam juntos no mesmo ateliê durante anos, e só passou a assinar as naturezas-mortas depois da morte do pai.

A abrangência da obra de Josefa é, porém, mais ampla. Dona de um estilo herdeiro do tenebrismo de origem mais nórdica, consagrou-se por um profundo e culto misticismo, sobretudo na fase mais madura, quando se torna uma ativa pintora de retábulos (estrutura em pedra ou madeira que se coloca na parte posterior de um altar).

Santa Teresa Esposa Mística (1672) - Óleo sobre tela. Paróquia de Cascais

Josefa também acumulou outras conquistas excepcionais. Dedicou-se em paralelo à pintura e à gravura, uma escolha pouco usual à época, além de ter sido o caso mais precoce na pintura em Portugal: aos 16 anos, já compunha obras em pequeno formato, mas de uma qualidade e riqueza de detalhes que seriam sua marca ao longo de quatro décadas de carreira.

Emancipação

Aos 30 anos e com consenso dos pais, ela adquire um estatuto de emancipação administrativa, equiparando-se a uma viúva. Até então, as mulheres estavam obrigadas a dependerem de um homem (o pai ou o marido) para efeitos de negócios. Era seu pai quem lhe comprava as chapas de cobre para pintar ou que recebia os valores da venda das gravuras, por exemplo.

A partir daí, a artista consegue grandes encargos (especialmente na região espanhola da Estremadura), compra sua própria casa, passa a viver sozinha e começa a mover-se no mundo dos negócios. Adquirem bens, terras e empresta dinheiro com juros. “Não era normal uma mulher solteira viver com completa independência, fora da casa dos pais, sem abdicar de sua profissão, e seguir a ser considerada socialmente um modelo de virtude”, salienta Caetano. Algum tempo após sua morte, aos 54 anos, já há registros de biografias escritas sobre ela.

Entre as principais obras, estão as da fase tardia, como o Menino Jesus Peregrino (1676), Santa Teresa Esposa Mística (1672) e as telas de retábulo com a Vida de Santa Teresa de Jesus, pintadas em 1672 para a Igreja Matriz de Cascais. Também ocupa lugar de destaque a vasta coleção de obras de natureza-morta, muitas das quais compôs em coautoria com o pai, o que dificulta sua identificação.




quarta-feira, 3 de junho de 2015

O CORTE PERFEITO: SENSUALIDADE E ARTE



USP pesquisa preferência de homens e mulheres sobre depilação feminina
Estudo vai traçar perfil de mulheres e avaliar relação com opinião masculina.
Objetivo é análise a respeito de aspectos clínicos e comportamentais.
Fernanda Testa Do G1 Ribeirão e Franca





O que a escolha do tipo de depilação genital pode revelar sobre a saúde e o comportamento da mulher? Uma pesquisa desenvolvida pelo Ambulatório de Estudos em Sexualidade Humana (AESH), no campus da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto (SP), quer trazer a resposta para esse tipo de questão.

Por meio de um questionário disponível na internet, pesquisadores da universidade pretendem traçar o perfil de homens e mulheres em relação à preferência do tipo de depilação, e analisar se tal escolha, no caso das mulheres, exerce algum tipo de influência no comportamento sexual e em eventuais sintomas clínicos.

O estudo
Segundo a pesquisadora Maria Luiza Prudente de Oliveira, o estudo surgiu a partir da observação de que a depilação genital é uma prática cada vez mais comum entre mulheres.
"Hoje em dia quase todas as mulheres fazem depilação. A tendência estética, a crença na melhoria da higiene genital ou a preferência masculina parecem influenciar essa prática. Queríamos saber qual a motivação, e concomitantemente, a gente pensou em saber se a preferência masculina responde um pouco a isso", explica.

No questionário, disponível desde maio na internet, as mulheres respondem a 22 questões sobre orientação sexual, tipo de depilação preferido, frequência e satisfação sexual, entre outras. Já os homens respondem a 12 perguntas, também presentes na lista feminina. "Perguntas referentes à técnica de depilação, local e método contraceptivo utilizado foram feitas só para as mulheres", afirma Maria Luiza.

“A tendência estética, a crença na melhoria da higiene genital ou a preferência masculina parecem influenciar a prática da depilação"
Maria Luiza de Oliveira, autora da pesquisa.

Não é preciso se identificar para responder as questões e as perguntas ficarão disponíveis na web por seis meses. O objetivo, segundo Maria Luiza, é conseguir ao menos mil homens e mil mulheres para então iniciar a análise dos dados.

"Queremos observar, por exemplo, se existe correlação entre grau de escolaridade, idade, orientação sexual, tipo de relacionamento. E analisar também a função sexual, tanto dos homens quanto das mulheres. O que é esperado como hipótese do trabalho é que exista uma confluência entre a preferência masculina e feminina", diz.

Saúde
Outro aspecto a ser analisado é a possível relação entre saúde e depilação. Segundo a pesquisadora, não há muitos estudos científicos sobre o tema. "Existem várias hipóteses de que o pelo é proteção, ou de que em compensação, pelo demais, em um ambiente tropical, prejudica a ventilação. Acreditamos que os resultados dos questionários nos mostrem que há certa diferença, dependendo do tipo de depilação, para a parte clínica", explica.

O grande diferencial esperado na análise dos questionários diz respeito à idade dos participantes. De acordo com Maria Luiza, é possível que a diferença de idade influencie no gosto pela depilação. "A curiosidade é: homens mais jovens, da geração filme pornô, preferem mulheres completamente depiladas? Porque é isso que aparece nos filmes. E homens mais velhos, preferem a mulher parcialmente depilada, já que na época deles a sexualidade era uma coisa mais velada?", questiona.


Na prática
Nos salões de beleza, quem trabalha diretamente com estética é categórico ao dizer que a idade é um dos fatores que mais influenciam no tipo de depilação adotada. Segundo a esteticista Thaís Amorim Ferreira, de 23 anos, mulheres mais jovens preferem a depilação completa, enquanto as mais maduras optam por retirar menos pelos.

"Mulheres até uns 25, 30 anos, costumam tirar tudo. Não deixam um pelo sequer. Já as senhoras tiram bem pouquinho, só a virilha simples. É muito raro uma senhora pedir para tirar tudo. Uma vez fiz depilação completa em uma delas e ela estranhou porque nunca tinha tirado, achou aquilo vulgar. Elas são mais recatadas", conta.

O comportamento da mulher foi mudando ao longo do tempo. A depilação ficou mais ousada"
Iraci Aparecida Reis, esteticista

Questões de higiene e preferência do parceiro também contam na hora da escolha da depilação, segundo Thaís. "As meninas novas dizem que preferem depilar tudo porque acham mais higiênico, não gostam de pelo quando menstruam. Outras já fazem para agradar o parceiro. Dizem, por exemplo: ai, ele gosta que fica um fiozinho, eu já não gosto. Mas acabam fazendo por eles também", diz.

Há mais de 20 anos no ramo, a esteticista Iraci Aparecida Faustino dos Reis, de 35 anos, também atribui a mudança nos tipos de depilação ao lugar que a mulher ocupa atualmente na sociedade. "O comportamento da mulher foi mudando ao longo do tempo. A depilação ficou mais ousada. Antigamente tirava-se só por conta do biquíni. Hoje é mais por higiene, preferência com o parceiro. Evoluiu bastante", afirma.





sábado, 23 de maio de 2015

RETA RAZÃO


PS; Para os que se dizem políticos da casa do mal. São Jo´se de Mipibu -RN -Brasil

AINDA BEM

Pesquisador diz ter encontrado único retrato de Shakespeare feito em vida
Toby Melville
O verdadeiro retrato de William Shakespeare, o único feito enquanto o autor britânico viveu, estava escondido em um livro de botânica do século 16. Ao menos, é o que clama o historiador britânico Mark Griffiths, que apresentou sua descoberta nesta terça-feira (19) na revista "Country Life".
A publicação vende a imagem, encontrada há cinco anos pelo pesquisador, como "a descoberta literária do século". Na ilustração, Shakespeare teria sido retratado aos 33 anos, logo após escrever "Sonhos de Uma Noite de Verão" e pouco antes de terminar "Hamlet".
Até hoje, existem apenas dois retratos considerados autênticos de Shakespeare: um deles, impresso na primeira coletânea publicada com seus textos, dos anos 1620. O outro está no monumento dedicado ao autor, na capela da Santíssima Trindade, em Stratford-upon-Avon, cidade natal do dramaturgo. Ambos, porém, são póstumos.





Griffiths afirma que trabalhava em uma biografia do botânico britânico John Gerard (1545-1612) em 2012, depois de anos estudando sua obra, quando se deparou com uma gravura em um de seus livros.

A princípio, não conseguiu identificar o retrato que aparecia em uma das 1.464 páginas do livro "The Herball", publicado no século 16. De acordo com o pesquisador, existem apenas de dez a 15 cópias da obra.
Depois de analisar a imagem, decifrou um código da época da dinastia Tudor impresso na gravura, que o permitiu concluir que o retrato pertencia a Shakespeare. O "código" era composto por pictogramas, símbolos heráldicos, cifras e flores emblemáticas, então utilizadas para identificar nomes e posições sociais.

Segundo o jornal britânico "The Telegraph", que conversou com o estudioso, o símbolo decifrado é a combinação do número quatro com a letra E (traduzindo para o latim, seria "quarter-e", ou o verbo "to shake", em inglês) e o uso das letras "OR" (termo heráldico para ouro, referência ao brasão da família Shakespeare).
Associando a leitura da sequência com a imagem de uma lança ("spear", em inglês), retratada também na gravura, o resultado seria "I shake spear" – ou seja, "Shakespeare". Além disso, a letra "W", grafada no código, representaria "William".

"No começo me pareceu difícil que alguém tão famoso e universalmente conhecido como Shakespeare pudesse ter passado despercebido naquela folha por tanto tempo", comentou Griffiths à agência EFE.

Ele conta que outra pista que o ajudou a decifrar o mistério são as plantas que adornavam as mãos do retratado, que seriam frequentemente mencionadas por Shakespeare em seus textos: uma flor da família das liláceas, na mão direita, e um sabugo de milho, na mão esquerda. 

ARTE

Mostra com mais de cem obras de Joan Miró entra em cartaz em SP
SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO

Menos delirante e mais realista do que se imagina, o Joan Miró que surge na retrospectiva dedicada a ele agora no Instituto Tomie Ohtake é um artista de pés firmes no chão, um autor que construiu uma obra arraigada na paisagem agreste da Catalunha e ao mesmo tempo em símbolos oníricos.

Na maior mostra do espanhol já realizada no país estão mais de cem obras de todas as fases de sua vida, sendo mais de 40 delas pinturas.
Em três salas do centro cultural paulistano, é possível observar a evolução da linguagem de Miró, um dos artistas mais influentes do século 20, morto aos 90, em 1993.
São trabalhos que vão desde os anos 1930, com o surgimento de seu vocabulário visual de personagens como o pássaro, o homem e a mulher, até as pinturas de gestual mais bruto e errático dos anos 1970, influenciadas pelo trabalho de expressionistas abstratos, como Jackson Pollock, que ele viu nos Estados Unidos.

"Miró sempre foi capaz de se aproximar do cosmos ao mesmo tempo em que olhava os aspectos mais primitivos do ser humano", diz Joan Punyet Miró, neto do artista. "Ele foi um criador visceral, que retratou o lado mais arcaico da experiência humana."

Nesse sentido, Miró buscou na experimentação com materiais uma forma de traduzir a tragédia das guerras que viveu e a violência da ditadura de Francisco Franco, que dominou a Espanha dos anos 1930 à década de 1970.

Em vez de pintar só sobre a tela convencional, o artista criou composições sobre chapas de madeira, lixas, trapos e até outras pinturas que comprava em mercados de pulgas.

Sua ideia era partir dos nós e veios da superfície da madeira ou das manchas e rasgos num papel para estruturar seus desenhos, usando o acaso como força motriz.

Ou seja, seus personagens quase abstratos e arquetípicos –a mulher como símbolo da fertilidade e o pássaro como ligação entre céu e terra– tinham raízes mais do que sólidas, inscritos na rugosidade da madeira e nos vincos do papel.

Mais perto da morte, Miró passou a cobrir suas telas de negro, com traços mais grossos e desajustados, manifestando sua consciência do fim.


sábado, 16 de maio de 2015

VALE QUANTO PESA ? ABSURDO ?

Entenda por que obras de arte são vendidas por preços tão altos
JOHN GAPPER
DO "FINANCIAL TIMES"
Quando investidores ricos concorrem uns contra os outros para adquirir um ativo, eles decerto devem ter certeza de seu valor financeiro, não? Para o presidente da Christie's, Jussi Pylkkänen, a resposta é sim.
Na noite de segunda (11), ele vendeu "'As Mulheres de Argel" (Versão O), de Picasso -a mais cara da história dos leilões-, por US$ 179,4 milhões (cerca de R$ 535,1 milhões).
"Os participantes de um leilão estão muito cônscios do valor do objeto e tomam decisões de maneira extremamente ponderada", disse Pylkkänen depois da venda. Os lances finais pelo quadro foram realizados cautelosamente, em incrementos de US$ 500 mil.
Em meio a leilões recorde em Londres e Nova York, a arte é cada vez mais tratada como ativo financeiro. "Swamped", um quadro de Peter Doig, 56, um artista escocês, foi vendido por US$ 29,5 milhões na noite de segunda.
Bilionários voam à Art Basel Miami a fim de comprar nas grandes galerias, executivos de gestão de patrimônio privado aconselham aos clientes comprar arte para diversificar seus investimentos e obras-primas lotam armazéns no porto livre de Genebra.
Mas quadros não são títulos financeiros. O valor financeiro de qualquer obra de arte continua tão intangível e indefinível quanto o sorriso da Mona Lisa. Como definiu o economista William Baumol, 30 anos atrás, os preços dos quadros "flutuam mais ou menos sem direção... Quem busca valor intrínseco, em termos financeiros, faria bem em procurá-lo em outro lugar".
Ainda que não saibamos quem comprou o Picasso, podemos ao menos especular sobre seus motivos. O verdadeiro valor está em ser dono de um quadro que museus como o Tate ou o Getty adorariam poder exibir ao público, e deslumbrar a si mesmo e aos amigos com uma obra que poucos poderão ver.
A única maneira de provar que você é o tipo de pessoa tanto culta quanto rica o bastante para ser dono de um trabalho importante de Picasso é comprar um deles.
Obras de arte "são uma escolha muito racional para aqueles que obtêm alto retorno na forma de prazer estético", concluiu Baumol. O economista John Picard Stein escreveu, em 1977, que o valor da arte vem do prazer que proporciona e, por isso, "não é capturável por especuladores".
Há também recompensas sociais -ser convidado a jantares em galerias e museus. Em pesquisa do grupo de auditoria Deloitte com colecionadores de arte, no ano passado, 61% admitiram esse fator como motivação.

AS DEZ OBRAS DE ARTE MAIS CARAS DA HISTÓRIA
Obra
Autor
valor atualizado
valor no dia da venda
ano da venda
"When will you marry me?"
PaulGauguin
US$ 330 milhões
US$ 330 milhões
2015
"Os Jogadores de Carta"
Paul Cézanne
US$ 263,1 milhões
US$ 250 milhões
2011
"As Mulheres de Argel"
Pablo Picasso
US$ 179,4 milhões
US$ 179,4 milhões
2015
"nº 5 - 1948"
Jackson Pollock
US$ 164,4 milhões
US$ 140 milhões
2006
"Mulher 3"
Willem de Koonig
US$ 161,5 milhões
US$ 137,5 milhões
2006
"Retrato de Adele Bloch-Bauer 1
Gustav Klimt
US$ 158,5 milhões
US$ 135 milhões
2006
"Le Rêve"
Pablo Picasso
US$ 157,5 milhões
US$ 155 milhões
2013
"Retrato do Dr. Gachet"
Vincent Van Gogh
US$ 149,4 milhões
US$ 82,5 milhões
1990
"Três Estudos de Lucian Freud"
Francis Bacon
US$ 144,7 milhões
US$ 142,4 milhões
2013
"Bal du Moulin de la Galette"
Pierre-Auguste Renoir
US$ 141,5 milhões
US$ 78,1 milhões
1990

AnteriorOs retornos financeiros são mais difíceis de deslindar. As vendas mundiais de obras de arte subiram a € 51 bilhões (R$ 174 bilhões) no ano passado, de acordo com a Fundação Europeia de Belas Artes, superando o pico anterior de € 48 bilhões de euros, em 2007. É um valor minúsculo se comparado aos quase R$ 880 trilhões (US$ 294 trilhões) em ativos financeiros nos mercados mundiais, mas ainda assim é uma quantia que precisa ser justificada financeiramente.
É difícil fazê-lo. O índice Mei Moses World All Art, que acompanha os preços das obras de arte vendidas em leilão, subiu 7% entre 2003 e 2013 -ligeiramente menos do que o índice de ações S&P 500 (a arte contemporânea obteve retorno mais alto, 10,5%).
A arte se saiu melhor que os títulos financeiros ao longo das últimas décadas, de acordo com alguns indicadores, mas existem motivos para ceticismo.
Um deles é que medir os retornos financeiros de obras que são vendidas e mais tarde revendidas em leilão ignora as peças que jamais retornam ao mercado, possivelmente por terem caído de valor.
Um segundo é que o mercado de arte sofre de opacidade e pesada falta de liquidez -nenhum quadro, mesmo que de autoria do mesmo artista é exatamente equivalente a outro.
Um terceiro fator é que os custos por transação são extremamente altos - as casas de leilão cobram cerca de 20% de comissão dos vendedores.
O aspecto mais exótico do mercado (entre muitos) é o de que os colecionadores mais ricos assumem os riscos financeiros menos previsíveis, ao menos quando fazem lances em leilões em lugar de comprar obras sigilosamente por meio de galerias.
Obras primas como "As Mulheres de Argel" muitas vezes apresentam desempenho abaixo da média em longo prazo, enquanto quadros menos glamourosos têm melhor chance de obter retornos estáveis.
Obras-primas podem perder o lustro -a arte do pós-guerra agora é celebrada, enquanto peças anteriores perderam importância. Doig superou Damien Hirst, mas o comprador de "Swamped", de Doig, não tem como saber se o valor vai perdurar.
Os economistas Jianping Mei e Michael Moses alertaram, em um estudo sobre os preços da arte entre 1955 e 2004, que "os investidores não devem se obcecar por obras-primas e precisam se precaver contra lances excessivos".
Ou talvez não: desafiar as probabilidades, assumir uma postura pública extravagante e por fim tomar posse de um quadro reverenciado de Picasso é o bastante.
Não há dúvida de que "As Mulheres de Argel" é uma obra de arte extraordinária. Determinar se será um investimento excepcional é outro assunto. Mas para o comprador, isso pode não importar.

Tradução de PAULO MIGLIACCI